
O 28º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte –
FestCurtasBH, realizado pela Fundação Clóvis Salgado, anunciou os filmes
premiados nas mostras competitivas no dia 7 de novembro. Com início no
dia 30 de outubro, o festival exibiu, em lotadas, um total de 127
curtas-metragens, dos quais 46 fizeram parte das Competitivas Internacional,
Brasil e Minas.
O tradicional Troféu Capivara foi entregue aos vencedores
escolhidos pelo Júri Oficial, que recebem também um prêmio em dinheiro no valor
de 5 mil reais, e ao ganhador selecionados pelo Júri Popular, que leva 3 mil
reais. No último dia do festival, 8 de novembro, o público ainda poderá
conferir a Sessão Acessibilidade (quatro filmes exibidos com tradução para
Libras), às 18h, e a sessão de filmes premiados, às 20h. Todas as atividades
são totalmente gratuitas.
Competitiva Internacional – O curta-metragem "Nada
acontece após a sua ausência" (Sudão, 2026), dirigido por Ibrahim Omar,
foi o grande vencedor da Mostra Competitiva Internacional. O curta estreou
mundialmente na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2026, e
depois passou por festivais em países como Portugal, Alemanha, Estados Unidos e
Coreia do Sul. A Menção Honrosa foi entregue à produção palestino-francesa
"Memória cruzada” (2025), de Shayma' Awawdeh, que antes passou por países
como Bélgica, Austrália e Países Baixos. Para o júri oficial da categoria,
formado por Jomaka, Lislye Ferreira e Lucas Oliveira, o curta "Nada
acontece após a sua ausência" leva o prêmio por “sua inventividade
estética, sua força política e sua defesa do cinema como experiência coletiva e
prática de resistência”. Narrando o percurso de uma cineasta que retorna à sua
aldeia no Sudão – tomado pela guerra – com o projeto de realizar uma sessão de
cinema, "o filme nos lembra que a possibilidade de reunir pessoas diante de
uma tela é também uma conquista histórica, atravessada por disputas políticas,
econômicas e culturais. E que, mesmo quando a violência interrompe os projetos
de vida, as imagens podem preservar experiências, construir vínculos e manter
abertas outras possibilidades de futuro”, destaca o júri.
Já “Memória cruzada” acompanha a diretora em seu percurso
por fitas VHS da Segunda Intifada palestina, que se combinam às suas memórias
pessoais. Segundo o júri, o curta foi reconhecido com a Menção Honrosa pela
combinação humanista entre as vivências subjetivas da realizadora, narradas por
ela mesma com forte carga poética, e o contexto sociopolítico duro que a
atravessa há décadas; pela montagem que explicita contradições entre o discurso
hegemônico e a realidade da população palestina; e pela coragem da cineasta ao
revolver arquivos da Segunda Intifada que são difíceis de olhar, mas para os
quais não se pode fechar os olhos. “Esperamos que essa menção traga mais
visibilidade à resiliência palestina e ao trabalho de cineastas, sobretudo
mulheres, que se arriscam usando o cinema como arma na luta pela libertação de
seus povos”, ressalta o júri. Os ganhadores não puderam estar presentes na
cerimônia de premiação, e o júri aceitou o prêmio, que será entregue
posteriormente ao diretor sudanês e à cineasta palestina.
Competitiva Brasil – O júri composto por Lila Foster,
Matthieu Orléan e Sinara Teles concedeu o prêmio de melhor filme brasileiro ao
piauiense “Caldeirão” (2026), de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley
Oliveira. O trio escolheu destacar um filme que “suspende as linhas do tempo
cronológico das imagens e suas diversas facetas: o olhar para a natureza, os
arquivos que historicizam as paisagens e os discursos, o retrato de pessoas
mergulhadas em seu tempo presente, mas que não deixam de trazer a inscrição de
um passado”. Para eles, o filme eleva a “potência do cinema em registrar, mas
também de inventar o seu próprio terreno, fértil nas suas histórias e ‘causos’
e bonito no modo como dá a ver a construção de um espaço-tempo físico e também
imaterial, como são as tramas da memória: algo bruto que nos atravessa, mas que
só podemos dar forma através de um processo de invenção”. No palco, Weslley
Oliveira agradeceu o prêmio e celebrou os outros filmes da Competitiva Brasil.
A Menção Honrosa foi concedida a “Ih, morri” (2025), de Lara
Carmo, do Rio de Janeiro. O filme conquistou o júri pela “forma como retrata o
mundo atual — tanto em sua violência quanto em sua vulnerabilidade. Tudo isso
por meio de uma linguagem cinematográfica altamente poética, na qual as
escolhas de enquadramento, iluminação e trilha sonora criam um distanciamento
salvador que nos convida a pensar e a sentir”. Com humor e “estranhamento
inquietante”, “Ih, morri” olha para as infâncias sem preconceitos e julgamentos,
abordando o vício em jogos em sua complexidade. A diretora se disse grata pela
honraria e ressaltou o fato de que aquela era uma história muito pessoal, que
partiu de sua experiência em casa com o próprio filho.
Competitiva Minas – Entre os filmes mineiros, o vencedor
escolhido pelo júri formado por Lucas Parente, Maria José Merino e Nayara
Aguiar foi “TV Entreaberta” (2025), do belo-horizontino Matheus Compart. O júri
reconheceu, na obra, “um gesto contracolonial que se insinua na disputa das
imagens e nas possibilidades de reapropriá-las. Por meio de manipulações
inventivas, desloca, desmonta e recombina os repertórios do imaginário
televisivo, e faz emergir outras relações entre o visto e o ocultado. Encarna a
captura hipnótica do olhar para desviá-la: destece o automatismo psíquico em
choques de possibilidades livres”. No palco ao lado de Vítor Batista –
montador, designer sonoro e um dos compositores da trilha sonora –, o cineasta
Matheus Compart agradeceu o reconhecimento e salientou o caráter coletivo do
filme, feito com a colaboração de cerca de 150 pessoas do curso de Cinema de
Animação e Artes Digitais da Universidade Federal de Minas Gerais.
Voto popular – “AGAZ o anagrama trágico” (2026), filme
palestino e português dirigido por Mohammed Hosam e Fernando José Pereira, foi
o escolhido pelo Júri Popular – formado pelo público do festival – dentre os
curtas das mostras competitivas e paralelas. A obra acompanha o próprio
Mohammed, um realizador palestino sobrevivente do conflito na Faixa de Gaza
que, por meio de uma série de filmes-cartas enviados a um colaborador
português, narra seus pensamentos e registra os detalhes do seu dia a dia enquanto
resiste em um campo de refugiados. Os ganhadores não puderam estar presentes na
cerimônia de premiação, e a equipe do festival aceitou o prêmio, que será
entregue posteriormente aos diretores.
Prêmios especiais – Em 2025, foi criada uma nova modalidade
de premiação, concedida pela organização do festival a artistas, coletivos e
trabalhadores do cinema em várias frentes (como a crítica, pesquisa, produção,
curadoria) e que se destacam em sua vitalidade estética, política e social.
Trata-se do Prêmio José Zuba Júnior, nomeado em homenagem ao criador do
Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, que idealizou este espaço
de partilha e encontro com o cinema de curta-metragem em 1994. Neste ano, a
honraria foi concedida ao projeto Filme de Rua, que gere o Cine Graciano – na
Lagoinha, Região Noroeste de Belo Horizonte –, espaço dedicado à exibição
gratuita de filmes brasileiros contemporâneos, com destaque para obras que
debatem direitos humanos, cultura popular e narrativas periféricas. O Troféu
Capivara foi entregue a Bruna Piantino, idealizadora de uma das mais
importantes iniciativas populares de circulação do cinema na capital mineira,
que agradeceu a homenagem e destacou a presença do cinema de quase todos os
estados do país nas 90 sessões que o espaço já realizou.
E uma novidade desta edição, o Prêmio Paradiso Multiplica
foi para o filme “A praia de Samuca” (2026) – de Saulo Salomão e Louraidan
Faria –, que foi também o filme brasileiro mais votado pelo júri popular.
Escolhidos pela organização do festival, os vencedores receberão uma mentoria
de até duas horas com um profissional integrante da Rede Paradiso de Talentos.
Emocionados, os dois agradeceram pelo prêmio e pelo carinho diário da equipe do
festival e do público.
Neste ano, o evento selecionou 96 filmes entre 3.340
inscrições, provenientes de 86 países. Entre os curtas inscritos, 1.305 foram
brasileiros e 2.035, internacionais. Além dos selecionados para as mostras
competitivas e paralelas, foram somados filmes que compõem as três mostras
especiais e a iniciativa Filmlab Palestine, totalizando quase 130 títulos na
programação. O festival traz como um dos temas centrais “cinema, invenção e
rebeldia” – homenageando os filmes realizados pela Cooperativa dos Realizadores
Cinematográficos Autônomos (CORCINA), grupo brasileiro de cineastas que
produziu mais de 60 curtas-metragens e distribuiu cerca de 100 entre 1978 e
1983. Outros destaques foram as projeções de filmes em película 16mm e 35mm,
além da exibição da cópia rara e recém-descoberta de "Tempo Quente"
(1980), de Leilany Fernandes, produzido pela CORCINA, Sérgio Péo, Lúcio Aguiar
e Maria Luiza d'Aboim, cineastas membros da cooperativa, também marcaram
presença no festival e conversaram com o público sobre a mostra especial.
Ana Siqueira, coordenadora de curadoria e programação do
FestCurtasBH, destaca, entre os pontos altos desta edição, a presença massiva
do público. “Tivemos não apenas a abertura lotada, mas todo o festival com sala
cheia, algo que não víamos nessa magnitude desde o período pré-pandemia. E
todas as pessoas sempre muito engajadas, assistindo a sessões sucessivas,
interessadas durante os debates, conversando nos intervalos sobre as impressões
que tiveram dos filmes. Ficamos extremamente felizes com a forma que o festival
foi abraçado pelo público e em ver como as pessoas se apropriaram desse espaço
e da programação, que foi pensada ao longo de muitos meses justamente para esse
encontro com os espectadores e espectadoras”, celebra Ana.
Para Bruno Hilário, coordenador-executivo do FestCurtasBH
deste ano, a resposta do público reflete a qualidade e a diversidade de
narrativas que o festival oferece. “A gente parabeniza os ganhadores, mas eu
costumo dizer que todos os filmes que vimos aqui mereciam um prêmio, porque
todos trazem esse cinema de invenção e rebeldia de que tanto falamos nesta
edição. Com esses mais de 100 curtas, o público pôde percorrer Minas, o Brasil
e o mundo em diversas temporalidades, encontrar realidades absolutamente desconhecidas,
ser confrontado com as urgências de povos e territórios, e, principalmente,
fazer isso em conjunto, em uma sala de cinema. O que faz do FestCurtasBH essa
potência, depois de 28 edições e mais de 30 anos de história, é essa janela que
o festival abre para que nós, juntos, olhemos para nós mesmos e para o mundo
por meio do cinema”, afirma Bruno.
O “28º FestCurtasBH” é realizado pelo Ministério da Cultura,
Governo de Minas Gerais, Fundação Clóvis Salgado e pela Prefeitura de Belo
Horizonte As atividades do evento têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio
Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do
Instituto Unimed-BH e do Instituto AngloGold, Patrocínio Plus da Vivo, Apoio da
MGS, Apoio Cultural do Instituto Cervantes de Belo Horizonte, Embaixada da
França no Brasil e Paradiso Multiplica, e correalização da APPA – Cultura &
Patrimônio. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à
Cultura, Lei Municipal de Incentivo à Cultura e Política Nacional Aldir Blanc
de Fomento à Cultura de Minas Gerais.
Bruna Piantino, que recebeu o Prêmio José Zuba Júnior - Crédito Paulo Lacerda
VENCEDORES DO 28º FESTCURTASBH
Júri Oficial
“NADA ACONTECE APÓS A SUA AUSÊNCIA” (2026), de Ibrahim Omar
| Sudão
Menção Honrosa [Competitiva Internacional]
"MEMÓRIA CRUZADA" (2023), de Shayma' Awawdeh |
Palestina, França
Melhor Curta-Metragem [Competitiva Brasil]
“CALDEIRÃO” (2026), de Oliveira Júnior, Milena Rocha e
Weslley Oliveira | Piauí
Menção Honrosa [Competitiva Brasil]
“IH, MORRI” (2025), de Lara Carmo | Rio de Janeiro
Melhor Curta-Metragem [Competitiva Minas]
“TV ENTREABERTA” (2026). de Matheus Compart | Belo Horizonte
Júri Popular
“AGAZ O ANAGRAMA TRÁGICO” (2026), de Mohammed Hosam e
Fernando José Pereira | Palestina, Portugal
Prêmio José Zuba Jr.
CINE GRACIANO - FILME DE RUA
Prêmio Paradiso Multiplica
“A PRAIA DE SAMUCA” (2026), de Saulo Salomão e Louraidan
Faria | Minas Gerais








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