domingo, 8 de novembro de 2026

FestCurtasBH encerra 28ª edição com participação intensa do público e filmes de vários lugares do mundo, destacando invenção e rebeldia no cinema

                        

fotos: Paulo Lacerda

                            

           


O 28º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FestCurtasBH, realizado pela Fundação Clóvis Salgado, anunciou os filmes premiados nas mostras competitivas no dia 7 de novembro. Com início no dia 30 de outubro, o festival exibiu, em lotadas, um total de 127 curtas-metragens, dos quais 46 fizeram parte das Competitivas Internacional, Brasil e Minas.

 

O tradicional Troféu Capivara foi entregue aos vencedores escolhidos pelo Júri Oficial, que recebem também um prêmio em dinheiro no valor de 5 mil reais, e ao ganhador selecionados pelo Júri Popular, que leva 3 mil reais. No último dia do festival, 8 de novembro, o público ainda poderá conferir a Sessão Acessibilidade (quatro filmes exibidos com tradução para Libras), às 18h, e a sessão de filmes premiados, às 20h. Todas as atividades são totalmente gratuitas.

 

Competitiva Internacional – O curta-metragem "Nada acontece após a sua ausência" (Sudão, 2026), dirigido por Ibrahim Omar, foi o grande vencedor da Mostra Competitiva Internacional. O curta estreou mundialmente na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2026, e depois passou por festivais em países como Portugal, Alemanha, Estados Unidos e Coreia do Sul. A Menção Honrosa foi entregue à produção palestino-francesa "Memória cruzada” (2025), de Shayma' Awawdeh, que antes passou por países como Bélgica, Austrália e Países Baixos. Para o júri oficial da categoria, formado por Jomaka, Lislye Ferreira e Lucas Oliveira, o curta "Nada acontece após a sua ausência" leva o prêmio por “sua inventividade estética, sua força política e sua defesa do cinema como experiência coletiva e prática de resistência”. Narrando o percurso de uma cineasta que retorna à sua aldeia no Sudão – tomado pela guerra – com o projeto de realizar uma sessão de cinema, "o filme nos lembra que a possibilidade de reunir pessoas diante de uma tela é também uma conquista histórica, atravessada por disputas políticas, econômicas e culturais. E que, mesmo quando a violência interrompe os projetos de vida, as imagens podem preservar experiências, construir vínculos e manter abertas outras possibilidades de futuro”, destaca o júri.

 

Já “Memória cruzada” acompanha a diretora em seu percurso por fitas VHS da Segunda Intifada palestina, que se combinam às suas memórias pessoais. Segundo o júri, o curta foi reconhecido com a Menção Honrosa pela combinação humanista entre as vivências subjetivas da realizadora, narradas por ela mesma com forte carga poética, e o contexto sociopolítico duro que a atravessa há décadas; pela montagem que explicita contradições entre o discurso hegemônico e a realidade da população palestina; e pela coragem da cineasta ao revolver arquivos da Segunda Intifada que são difíceis de olhar, mas para os quais não se pode fechar os olhos. “Esperamos que essa menção traga mais visibilidade à resiliência palestina e ao trabalho de cineastas, sobretudo mulheres, que se arriscam usando o cinema como arma na luta pela libertação de seus povos”, ressalta o júri. Os ganhadores não puderam estar presentes na cerimônia de premiação, e o júri aceitou o prêmio, que será entregue posteriormente ao diretor sudanês e à cineasta palestina.

 

Competitiva Brasil – O júri composto por Lila Foster, Matthieu Orléan e Sinara Teles concedeu o prêmio de melhor filme brasileiro ao piauiense “Caldeirão” (2026), de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira. O trio escolheu destacar um filme que “suspende as linhas do tempo cronológico das imagens e suas diversas facetas: o olhar para a natureza, os arquivos que historicizam as paisagens e os discursos, o retrato de pessoas mergulhadas em seu tempo presente, mas que não deixam de trazer a inscrição de um passado”. Para eles, o filme eleva a “potência do cinema em registrar, mas também de inventar o seu próprio terreno, fértil nas suas histórias e ‘causos’ e bonito no modo como dá a ver a construção de um espaço-tempo físico e também imaterial, como são as tramas da memória: algo bruto que nos atravessa, mas que só podemos dar forma através de um processo de invenção”. No palco, Weslley Oliveira agradeceu o prêmio e celebrou os outros filmes da Competitiva Brasil.

 

A Menção Honrosa foi concedida a “Ih, morri” (2025), de Lara Carmo, do Rio de Janeiro. O filme conquistou o júri pela “forma como retrata o mundo atual — tanto em sua violência quanto em sua vulnerabilidade. Tudo isso por meio de uma linguagem cinematográfica altamente poética, na qual as escolhas de enquadramento, iluminação e trilha sonora criam um distanciamento salvador que nos convida a pensar e a sentir”. Com humor e “estranhamento inquietante”, “Ih, morri” olha para as infâncias sem preconceitos e julgamentos, abordando o vício em jogos em sua complexidade. A diretora se disse grata pela honraria e ressaltou o fato de que aquela era uma história muito pessoal, que partiu de sua experiência em casa com o próprio filho.

 

Competitiva Minas – Entre os filmes mineiros, o vencedor escolhido pelo júri formado por Lucas Parente, Maria José Merino e Nayara Aguiar foi “TV Entreaberta” (2025), do belo-horizontino Matheus Compart. O júri reconheceu, na obra, “um gesto contracolonial que se insinua na disputa das imagens e nas possibilidades de reapropriá-las. Por meio de manipulações inventivas, desloca, desmonta e recombina os repertórios do imaginário televisivo, e faz emergir outras relações entre o visto e o ocultado. Encarna a captura hipnótica do olhar para desviá-la: destece o automatismo psíquico em choques de possibilidades livres”. No palco ao lado de Vítor Batista – montador, designer sonoro e um dos compositores da trilha sonora –, o cineasta Matheus Compart agradeceu o reconhecimento e salientou o caráter coletivo do filme, feito com a colaboração de cerca de 150 pessoas do curso de Cinema de Animação e Artes Digitais da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Voto popular – “AGAZ o anagrama trágico” (2026), filme palestino e português dirigido por Mohammed Hosam e Fernando José Pereira, foi o escolhido pelo Júri Popular – formado pelo público do festival – dentre os curtas das mostras competitivas e paralelas. A obra acompanha o próprio Mohammed, um realizador palestino sobrevivente do conflito na Faixa de Gaza que, por meio de uma série de filmes-cartas enviados a um colaborador português, narra seus pensamentos e registra os detalhes do seu dia a dia enquanto resiste em um campo de refugiados. Os ganhadores não puderam estar presentes na cerimônia de premiação, e a equipe do festival aceitou o prêmio, que será entregue posteriormente aos diretores.

 

Prêmios especiais – Em 2025, foi criada uma nova modalidade de premiação, concedida pela organização do festival a artistas, coletivos e trabalhadores do cinema em várias frentes (como a crítica, pesquisa, produção, curadoria) e que se destacam em sua vitalidade estética, política e social. Trata-se do Prêmio José Zuba Júnior, nomeado em homenagem ao criador do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, que idealizou este espaço de partilha e encontro com o cinema de curta-metragem em 1994. Neste ano, a honraria foi concedida ao projeto Filme de Rua, que gere o Cine Graciano – na Lagoinha, Região Noroeste de Belo Horizonte –, espaço dedicado à exibição gratuita de filmes brasileiros contemporâneos, com destaque para obras que debatem direitos humanos, cultura popular e narrativas periféricas. O Troféu Capivara foi entregue a Bruna Piantino, idealizadora de uma das mais importantes iniciativas populares de circulação do cinema na capital mineira, que agradeceu a homenagem e destacou a presença do cinema de quase todos os estados do país nas 90 sessões que o espaço já realizou.

 

E uma novidade desta edição, o Prêmio Paradiso Multiplica foi para o filme “A praia de Samuca” (2026) – de Saulo Salomão e Louraidan Faria –, que foi também o filme brasileiro mais votado pelo júri popular. Escolhidos pela organização do festival, os vencedores receberão uma mentoria de até duas horas com um profissional integrante da Rede Paradiso de Talentos. Emocionados, os dois agradeceram pelo prêmio e pelo carinho diário da equipe do festival e do público.

 

Neste ano, o evento selecionou 96 filmes entre 3.340 inscrições, provenientes de 86 países. Entre os curtas inscritos, 1.305 foram brasileiros e 2.035, internacionais. Além dos selecionados para as mostras competitivas e paralelas, foram somados filmes que compõem as três mostras especiais e a iniciativa Filmlab Palestine, totalizando quase 130 títulos na programação. O festival traz como um dos temas centrais “cinema, invenção e rebeldia” – homenageando os filmes realizados pela Cooperativa dos Realizadores Cinematográficos Autônomos (CORCINA), grupo brasileiro de cineastas que produziu mais de 60 curtas-metragens e distribuiu cerca de 100 entre 1978 e 1983. Outros destaques foram as projeções de filmes em película 16mm e 35mm, além da exibição da cópia rara e recém-descoberta de "Tempo Quente" (1980), de Leilany Fernandes, produzido pela CORCINA, Sérgio Péo, Lúcio Aguiar e Maria Luiza d'Aboim, cineastas membros da cooperativa, também marcaram presença no festival e conversaram com o público sobre a mostra especial.

 

Ana Siqueira, coordenadora de curadoria e programação do FestCurtasBH, destaca, entre os pontos altos desta edição, a presença massiva do público. “Tivemos não apenas a abertura lotada, mas todo o festival com sala cheia, algo que não víamos nessa magnitude desde o período pré-pandemia. E todas as pessoas sempre muito engajadas, assistindo a sessões sucessivas, interessadas durante os debates, conversando nos intervalos sobre as impressões que tiveram dos filmes. Ficamos extremamente felizes com a forma que o festival foi abraçado pelo público e em ver como as pessoas se apropriaram desse espaço e da programação, que foi pensada ao longo de muitos meses justamente para esse encontro com os espectadores e espectadoras”, celebra Ana.

 

Para Bruno Hilário, coordenador-executivo do FestCurtasBH deste ano, a resposta do público reflete a qualidade e a diversidade de narrativas que o festival oferece. “A gente parabeniza os ganhadores, mas eu costumo dizer que todos os filmes que vimos aqui mereciam um prêmio, porque todos trazem esse cinema de invenção e rebeldia de que tanto falamos nesta edição. Com esses mais de 100 curtas, o público pôde percorrer Minas, o Brasil e o mundo em diversas temporalidades, encontrar realidades absolutamente desconhecidas, ser confrontado com as urgências de povos e territórios, e, principalmente, fazer isso em conjunto, em uma sala de cinema. O que faz do FestCurtasBH essa potência, depois de 28 edições e mais de 30 anos de história, é essa janela que o festival abre para que nós, juntos, olhemos para nós mesmos e para o mundo por meio do cinema”, afirma Bruno.

 

Lara Carmo, diretora do filme IH, MORRI - Crédito Paulo Lacerda 

O “28º FestCurtasBH” é realizado pelo Ministério da Cultura, Governo de Minas Gerais, Fundação Clóvis Salgado e pela Prefeitura de Belo Horizonte As atividades do evento têm a Cemig como mantenedora, Patrocínio Master do Instituto Cultural Vale e Grupo Fredizak, Patrocínio Prime do Instituto Unimed-BH e do Instituto AngloGold, Patrocínio Plus da Vivo, Apoio da MGS, Apoio Cultural do Instituto Cervantes de Belo Horizonte, Embaixada da França no Brasil e Paradiso Multiplica, e correalização da APPA – Cultura & Patrimônio. A ação é viabilizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei Municipal de Incentivo à Cultura e Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura de Minas Gerais.

Bruna Piantino, que recebeu o Prêmio José Zuba Júnior - Crédito Paulo Lacerda

 

Sessão de Premiação do 28º FestCurtasBH - Crédito Paulo Lacerda

VENCEDORES DO 28º FESTCURTASBH

 

Júri Oficial da mostra Competitiva Internacional - Crédito Paulo Lacerda


Júri Oficial

 Melhor Curta-Metragem [Competitiva Internacional]

 

“NADA ACONTECE APÓS A SUA AUSÊNCIA” (2026), de Ibrahim Omar | Sudão

 

Menção Honrosa [Competitiva Internacional]

 

"MEMÓRIA CRUZADA" (2023), de Shayma' Awawdeh | Palestina, França

 

Melhor Curta-Metragem [Competitiva Brasil]

 


“CALDEIRÃO” (2026), de Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira | Piauí

 

Menção Honrosa [Competitiva Brasil]

 

“IH, MORRI” (2025), de Lara Carmo | Rio de Janeiro

 

Melhor Curta-Metragem [Competitiva Minas]

 

“TV ENTREABERTA” (2026). de Matheus Compart | Belo Horizonte

 

Júri Popular

 

“AGAZ O ANAGRAMA TRÁGICO” (2026), de Mohammed Hosam e Fernando José Pereira | Palestina, Portugal

 

Prêmio José Zuba Jr.

 

CINE GRACIANO - FILME DE RUA

 

Prêmio Paradiso Multiplica

 


“A PRAIA DE SAMUCA” (2026), de Saulo Salomão e Louraidan Faria | Minas Gerais

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