Localizada na Serra da Mantiqueira, na região sul de Minas
Gerais, a cidade de Maria da Fé é conhecida por ser uma das mais frias do
estado, com temperaturas que podem chegar a menos de 0°C durante o inverno. Mas
o local é famoso não apenas por esse atributo: o artesanato de peças de
decoração e utilitários feitos com papel machê e fibra de bananeira é outra
atração local.
A cidade de Maria da Fé é famosa
pelo artesanato com papel machê e fibra de bananeira
O que hoje é sinônimo de orgulho e reconhecimento foi uma
alternativa para sustento de muitas famílias no final da década de 1990. À
época, a queda no preço da batata, principal cultivo do município, levou muitas
famílias à falência e gerou incertezas sobre o futuro.
O designer Domingos Tótora atuava como professor de artes
para crianças e teve uma ideia: ao ver muitas caixas de papelão abandonadas na
porta de lojas, resolveu experimentar dar um novo uso a elas. Ele fez testes
usando uma mistura de massa de papelão com cola e água para criar pratos, tendo
como resultado um material bonito e de qualidade. Assim, do reúso de um recurso
disponível, com criatividade, surgiu o artesanato com papel machê, alternativa
de geração de renda que passaria a ser marca de Maria da Fé.
Diante do potencial da cidade para o artesanato, o Sebrae
Minas iniciou um trabalho ali, em parceria com a Prefeitura, no ano de 1999.
Foi quando a Cooperativa Mariense de Artesanato foi criada, em paralelo ao
Projeto de Desenvolvimento do Turismo Rural em Maria da Fé. “A iniciativa teve
origem no contexto de turismo rural trabalhado pela administração local,
focando a geração de emprego e renda e a valorização do artesanato como
expressão cultural e econômica da região”, relata a analista do Sebrae Minas Andressa
Paes.
A Oficina Gente de Fibra, grupo formado pelo artista e
outras cinco mulheres que passou a ensinar o artesanato de papel machê e fibra
de bananeira para outros artesãos, além de produzir peças para venda.
Em 27 anos de história, o grupo Gente de Fibra construiu uma trajetória de
sucesso, destacando-se pela criação de produtos exclusivos, sustentáveis e de
alta qualidade, conquistando tanto o mercado nacional quanto o internacional.
Contudo, o grupo enfrentou desafios, como a necessidade de se reinventar em um
mercado cada vez mais exigente, especialmente em um cenário em que a inovação
responsável e a transparência sobre a origem dos produtos são pontos
fundamentais, e a demanda de envolvimento das novas gerações na atividade, em
um trabalho de sucessão. O Sebrae Minas, então, iniciou um novo trabalho para
reestruturar a governança e reposicionar estrategicamente a cooperativa, além
de incluir os jovens.
Como continuidade do reposicionamento estratégico, para os
próximos anos estão previstas ações para a consolidação de produtos que
representem a essência regional, o redesign da marca, a ampliação da integração
com o turismo local e a promoção do artesanato como uma experiência cultural. Estão
também previstos a ampliação das redes de comercialização, com foco em design
sustentável e inovação, o incremento da formação, a inclusão de novos artesãos
e o lançamento de uma nova coleção, com participação em grandes feiras, como Essas
ações visam não apenas promover a sustentabilidade financeira da cooperativa,
mas também reforçar seu papel .
Rosilene Cruz, presidente do Gente de Fibra
Rosilene Cruz está no Gente de Fibra desde a sua fundação.
Antes do grupo, ela fazia trabalhos manuais de ponto cruz e crochê e se orgulha
da trajetória que foi construída em conjunto. “Posso dizer que é um trabalho
que me realiza, que a gente faz com amor e carinho. A gente começou junto, não
foi uma coisa fácil nos manter no mercado, foi muito trabalho, foi muito
esforço de todo mundo. Não consigo me ver fora daqui.”
“O nosso trabalho é de grande ajuda para o meio ambiente:
reciclamos o papel que recolhemos do comércio e usamos a fibra de bananeira que
o produtor rural descartaria, evitando que elas ficassem no terreno.”
Entre os objetos produzidos pelo Gente de Fibra estão
mandalas, fruteiras, porta-retratos e vasos. “Temos pessoas de várias idades no
grupo e todos fazemos um pouco de tudo, desde recolher o tronco da bananeira na
roça até a pintura das peças. Procuramos fazer um trabalho com identidade
local, buscamos o que a cidade oferece. A maioria das peças é inspirada pela
Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes e nas oliveiras”, relata Rosilene.
crédito fotos: foto:Wilkie Buzatti
A artesã diz que os objetos produzidos encantam os
frequentadores das feiras de que participam pela beleza e sustentabilidade
ambiental. “Em 2024, eu pude ir a feiras de artesanato em Brasília, Belo
Horizonte e São Paulo para expor o nosso trabalho. Quando chegam no nosso
espaço e descobrem que é um trabalho feito com papel, fibras e pigmentos da
terra, as pessoas ficam entusiasmadas.”
No fim de 2024, estávamos com uma exposição na Colômbia,
mandamos peças para a Áustria e Dubai. Então atingimos lugares em que nunca
imaginamos chegar”, comemora Rosilene.
As artesãs concordam que o trabalho vai muito além de
fomentar a economia de Maria da Fé: cria uma identidade, empodera famílias e
prova que a união de artesãos é capaz de gerar ótimos resultados, mesmo nos
momentos difíceis. O nome da cooperativa já diz tudo. www.gentedefibra.com.br tel (35) 36622386