A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte
e o 17º Brasil CineMundi – International Coproduction Meeting começaram dia 22 de setembro, com
expectativas e filas dobrando esquinas sob o batuque do grupo Elekuê, em um Cine
Theatro Brasil lotado para uma noite de celebração e defesa dos cinemas
latino-americanos. A performance MANIFESTA, guiada pela interrogação
proposta pela temática deste ano – Cinema latino-americano, o que será? – marcou
o início da programação do festival, que pretende se debruçar menos sobre
explicações fáceis do que sobre a radicalidade inventiva e indomável dos
questionamentos.
Em seu discurso de abertura, Raquel Hallak reconheceu os diversos encontros que geraram filmes, parcerias e possibilidades nos últimos anos, afirmando o vigor de tudo que foi construído, mas exaltando aquilo que se projeta para o futuro, movido, sobretudo, por perguntas. A questão que norteia a temática do evento, para ela, “não pede uma única resposta. Ela abre espaço para muitas vozes, muitos territórios, muitas experiências e diferentes maneiras de ver e transformar o mundo. O cinema latino-americano nasce dessa pluralidade, é feito de muitas identidades que atravessam fronteiras, e ao mesmo tempo carrega consigo a força de cada lugar”.
A coordenadora da CineBH destacou, ainda, a importância do cinema
braisleiro circular e ser visto nesses diferentes territórios. “O cinema é
também trabalho. É uma indústria que movimenta uma extensa rede de
profissionais, gera emprego, renda, conhecimento, inovação, atrai investimentos
e projeta a imagem do Brasil internacionalmente. Quando um filme brasileiro
circula, ele não viaja sozinho. Com ele viajam nossos sotaques, paisagens,
modos de viver, contradições e criatividade”. Para ela, nosso cinema deve
“ocupar, com identidade e autonomia, as telas do mundo”. Firmando seu
compromisso com a defesa das políticas públicas - uma marca do projeto Cinema
sem Fronteiras, da Universo Produção -, Raquel ressaltou a necessidade de
criarmos condições estruturais e contínuas
para que nossos filmes encontrem as telas.
Emocionada, Raquel recordou da convicção com a qual, há 20 anos, a
CineBH foi criada: como promessa, hoje concretizada, de um espaço de exibição,
reflexão, formação e encontro. “É um evento que nasceu ligado à cidade, e que
ao longo de sua trajetória ampliou horizontes, conectou territórios e se
consolidou como uma plataforma do cinema brasileiro e latino-americano”. Ela
exaltou, ainda, a dimensão coletiva dessa construção: “nada disso se faz
sozinho. Uma história de 20 anos é construída por muitas mãos, escolhas e
presenças, em permanente movimento”.
Após a entrega das placas de reconhecimento às autoridades presentes e
apoiadores do evento - com falas em defesa da soberania e democracia
brasileiras de Durval Ângelo, Conselheiro Presidente do Tribunal de Contas do
Estado, e Cida Falabella, Secretária Municipal de Cultura - a cerimônia de abertura seguiu com as
homenagens à realizadora paraguaia Paz Encina e à escritora mineira Conceição
Evaristo.
Encina é uma das mais importantes cineastas da América Latina, forjando
uma prática cinematográfica que desafia modos e tempos de produção dominantes,
ampliando sonoridades, imagens e imaginários sobre o seu país, de produção
historicamente descontínua. Seu primeiro longa-metragem, Hamaca Paraguaya (2006),
completa, como a CineBH, duas décadas e se firma como um trabalho fundamental
para a retomada de uma cinematografia atravessada por interdições materiais,
simbólicas e autoritárias. Encina recebeu o Troféu Horizontes do coordenador
curatorial da CineBH, Cleber Eduardo, e da curadora Esther Marçal Fér, que
ressaltaram o sonho antigo de trazê-la a Belo Horizonte desde a virada latina
do festival, em 2022. “Receber você aqui é mais do que o reconhecimento de uma
grande cineasta, é agradecer, gracias, por fazer do Paraguai um lugar
que não só vemos na tela, mas que carregamos conosco. Um cinema que nos convida
a olhar e sustentar esse olhar; a
escutar as ausências que nos constituem; a lembrar, como diz Maria José Merino,
que ‘permanecer e avançar não são movimentos opostos, que podemos habitar o
passado sem deixar de imaginar o futuro’”. Em sua fala, Paz Encina escolheu
exprimir sua reverência a outros e outras colegas cineastas, evocando, num
gesto de humildade e amor, vinte filmes - um para cada ano trilhado pela CineBH
(e por ela, em sua carreira) - que mudaram sua vida. Glauber Rocha, Gentino
Solanas, Jorge Sanjinés, Maria Luísa Bemberg, Carlos Saguier, Patrício Guzmán,
Eduardo Coutinho, Lourdes Portillo, Albertina Carri, João Moreira Salles, Carlos
Reygadas, Karin Ainouz, Lucrécia Martel, Tatiana Huezo, Juan Pablo Rabella,
Pablo Stoll, Maria Alvárez, Andrés Di Tella, Tomás Gutiérrez Alea, Everardo
González e Kiro Russo também foram honrados nesta noite.
Já Conceição Evaristo, renomada por uma obra literária que abarca
romances, contos, poemas e ensaios, expande sua sensibilidade, agora como
atriz, em Se eu fosse vivo… vivia, o mais recente longa de André
Novais de Oliveira, recém-laureado como Melhor Filme no Festival de Cinema
de Brasília. Pelo protagonismo partilhado entre Evaristo e Norberto Novais de
Oliveira, o filme também recebeu uma menção honrosa. Ao falar sobre sua
primeira e já inarredável experiência neste outro âmbito de criação por uma
transmissão remota, já que o mau tempo a impediu de pousar a tempo na capital
mineira, Evaristo exprimiu seu desejo para que outras intercorrências não a
impeçam de seguir atuando. Agradeceu, com sua presença calorosa, embora longínqua,
à sua família, que recebeu o troféu um seu nome, e à equipe do seu filme de
estreia, principalmente ao diretor André Novais. “Quando ele me convidou,
perguntei se ele sabia o que estava fazendo. Foi uma experiência inusitada,
jamais pensei em vivê-la. Vocês me fizeram. É uma nova experiência com Belo
Horizonte, pisando nesta cidade de outra forma para contar uma história de
amor. Isso me sensibiliza muito, essa escrevivência que André leva para o
filme”. Novais, por sua vez, comentou como “foi bonito o jeito que ela aceitou
o convite, pois adorava desafios. Isso diz muito dela e do jeito que ela
abraçou a equipe, e que a equipe abraçou ela. Foi muito especial”.
A noite se encerrou com a pré-estreia elétrica e calorosa de Se eu
fosse vivo…vivia no território da produtora Filmes de Plástico, cuja
trajetória se entrelaça com a do próprio festival. Transitando, com humor e
singeleza, entre as delicadezas do cotidiano e as possibilidades políticas do
fantástico, o filme atiça sensibilidades e aguça inquietudes, animando o
público para uma programação vasta e igualmente vibrante, que promete ecoar, ao
longo de seis dias, a força e a autonomia criativa do cinema brasileiro e
latino-americano.
A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi integram o Cinema sem Fronteiras 2026 – programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).
Fndação Clóvis Salgado (Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias, Teatro João Ceschiatti e Jardim Interno), Cine Theatro Brasil (Grande-Teatro, Teatro de Câmara, Galerias 5º e 6º andar, Terraço), Cine Belas Artes, Sala de Cinema Minas Tênis Clube, Cine Santa Tereza, Teatro Sesiminas, Casa da Mostra e Praça da Liberdade
LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURAESTE PROJETO É REALIZADO COM RECURSOS DA LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA DE BELO HORIZONTE
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Patrocínio:
REDE MATER DEI DE SAÚDE
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