Japão estreia no Festuris com experiência dedicada à bebida milenar; brasileiro Fabio Ota estará à frente da imersão e explica como escolher, servir e harmonizar um bom saquê
Uma taça de saquê pode contar muito sobre o Japão. O arroz, a água, o clima, as técnicas de fermentação e até as características de cada região produtora ajudam a criar diferentes estilos de uma bebida que atravessou fronteiras e hoje está presente em restaurantes e bares de diferentes partes do mundo.
Em novembro, um pouco
desse universo chegará a Gramado (RS). Pela primeira vez em 38 edições, o Japão
participará do Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado, em uma
experiência que pretende aproximar os visitantes não apenas do destino, mas também
de sua cultura e gastronomia. O país estará no Espaço Luxury, onde terá um
ambiente próprio e, entre as atrações, um Saquê Bar.
Quem ajudará a conduzir
essa viagem pela bebida será o Sake Samurai brasileiro Fabio Kenji Ota,
fundador da Mega Sake e um dos principais especialistas no assunto no Brasil.
Neto de japoneses, Ota conheceu o Japão com 13 anos e já retornou ao país cerca
de 30 vezes. Em 2023, recebeu em Kyoto o título de Sake Samurai, distinção
concedida a pessoas que contribuem para difundir a cultura do saquê no mundo.
A relação entre os
brasileiros e a bebida, no entanto, começou muitas décadas antes. O saquê
chegou ao país junto com a cultura trazida pela imigração japonesa, iniciada
oficialmente em 1908. Na década de 1930 foi criada em Campinas, no interior de
São Paulo, a empresa que daria origem à primeira produção comercial de saquê no
Brasil.
Crédito da Foto: Keiny
Andrade
Quase um século depois, o
cenário mudou. O saquê deixou de ocupar apenas as mesas de restaurantes
japoneses e passou a aparecer em cartas de bebidas, menus de harmonização e
casas de alta gastronomia. A empresa fundada por Ota atende hoje mais de 500
bares e restaurantes.
Essa conexão entre
destino, cultura e gastronomia também está por trás da estreia japonesa no
Festuris. Para a CEO da Rossi & Zorzanello e idealizadora do Festuris,
Marta Rossi, o viajante de alto padrão vem buscando experiências cada vez mais
autênticas e conectadas à cultura local.
“Existe uma mudança na
forma como o viajante de alto padrão escolhe seus destinos. Hoje ele busca
acesso à cultura, à gastronomia e a experiências que dificilmente poderiam ser
reproduzidas em outro lugar. A estreia do Japão no Festuris traduz muito desse
movimento: é um destino que reúne tradição e uma identidade muito própria, e
queremos aproximar o nosso público desse universo”, afirma a CEO.
Em Gramado, a proposta é
que o Japão comece a ser descoberto justamente por uma dessas experiências: uma
bebida profundamente ligada à história, aos hábitos e à cultura do país.
O 38º Festuris será
realizado de 12 a 15 de novembro de 2026, no Serra Park, em Gramado.
Considerado um dos principais encontros de negócios turísticos das Américas, o
evento reúne destinos, marcas, profissionais e experiências ligadas ao turismo
nacional e internacional. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo
site oficial: festurisgramado.com
Mas, afinal, como
escolher um bom saquê? A bebida deve ser tomada quente ou gelada? E por que ela
combina com muito mais do que a gastronomia japonesa? Fabio Ota responde essas
e outras curiosidades e conta o que o público poderá encontrar na experiência
que será apresentada em Gramado.
1 - Para quem ainda
conhece pouco o saquê, o que é importante saber sobre a bebida?
Primeiro, não deve se
preocupar se ainda não conhece muito. O aprendizado é um caminho, da mesma
forma como aprendemos a tomar vinho. Aliás, a melhor forma de beber e
aproveitar saquês de qualidade é usar taça de vinho, que todo restaurante ou
consumidor já tem. O saquê é a bebida alcoólica que tem a maior quantidade de
umami. Ele é o quinto gosto, ainda pouco conhecido no Ocidente. Conhecemos bem
o doce, o salgado, o azedo e o amargo, mas o umami, que é esse gosto que motiva
as pessoas a comerem e beberem mais, ainda é um mistério por aqui.
Por possuir muito umami,
quatro vezes mais do que o vinho ou a cerveja, o saquê é a bebida que mais
combina com comida – qualquer tipo, não só a japonesa. Saquê vai bem com pizza,
com churrasco, queijo, com tudo.
Outra coisa que pouca
gente sabe é que a bebida deve ser guardada na geladeira e, infelizmente, são
poucos os importadores que trazem os saquês refrigerados do Japão.
Especialmente pela distância e pelo tempo que demora, na Mega Sake utilizamos
containers a -5°C e depósito refrigerado, o que mantém a qualidade da bebida.
2 - Como escolher um bom
saquê e quais harmonizações com a gastronomia você considera mais
interessantes?
Em primeiro lugar é
preciso se atentar para a logística. Como o saquê é uma bebida que deve ser
mantida refrigerada, comprar da estante à temperatura ambiente já não é bom.
Mas também não significa que, só por estar em geladeira, o saquê foi importado
refrigerado. Caso não tenha sido, o dano já está feito. Não que ele estrague
completamente, mas os aromas e o sabor são afetados, e a percepção de álcool
aumenta na boca e no nariz.
Aliás, os saquês que mais
sofrem com falta de refrigeração são os mais caros, que têm o arroz mais polido
e, portanto, necessitam de muito mais matéria-prima para se produzir o conteúdo
de uma garrafa. Além de o maior polimento já não significar melhor qualidade,
também são mais frágeis.
Em 2025, abri, em São
Paulo, o restaurante Miyabi, que já vem sendo reconhecido por diversos prêmios
e é uma casa de culinária kaiseki (a alta gastronomia sazonal do Japão)
com harmonização de saquês.
No Japão e no Miyabi cada
prato é testado com diversos saquês, a diversas temperaturas e, muitas vezes,
com taças, copos diferentes e infusões. Então, reluto muito em divulgar uma
harmonização que sempre dê certo. Já tivemos que trocar o saquê escolhido porque
a origem do atum ou da vieira, naquela semana, foi diferente – uma vieira
canadense não tem o mesmo sabor e consistência da vieira japonesa, por exemplo.
Mas posso dizer que
alguns saquês ficam incríveis com queijos brasileiros (claro que, com alguns
deles, já que a variedade é enorme). E, como dica, a melhor harmonização do
saquê ocorre dentro da boca, ou seja, não é só comer, engolir e depois beber.
Nós sempre recomendamos que coloquemos um pouco de comida e um pouco de saquê
ao mesmo tempo na boca. Isso sim é uma harmonização de fato.
3 - Do que o saquê é
feito? Qual o seu teor alcoólico e temperatura ideal para tomar?
O saquê é um fermentado,
como o vinho, embora seu processo de produção seja bem mais complexo –
considerando que o arroz, de que ele é feito, não possui açúcar como a uva.
Então você primeiro tem que cozinhar o arroz e fazer com que o amido contido no
grão vire açúcar, para que possa produzir álcool.
Muita gente acaba achando
que o saquê é uma bebida destilada ou com um grau alcoólico alto, talvez por o
terem experimentado pela primeira vez numa caipirinha. E a caipirinha,
tradicionalmente feita de cachaça, também tem variações com vodca ou saquê. Desses
três, o único que é fermentado é o saquê, mas pode ficar a impressão para o
público de que ele é um destilado ou tem um grau alcoólico alto como a cachaça
ou a vodca. A verdade é que o saquê tem um grau alcoólico entre 13% e 16%, ou
seja, muito parecido com o vinho, embora também existam saquês com grau
alcoólico abaixo de 10%.
O saquê é, provavelmente,
a bebida mais versátil do mundo, já que pode ser tomado a, literalmente,
qualquer temperatura, inclusive super quente, a cerca de 60°C. No Japão há
bares que só servem saquê quente, embora esse não seja um costume tão difundido
em países mais quentes.
Gosto muito de tomar
saquê em temperatura de vinho branco leve, a cerca de 10°C. Se o saquê tiver
sido importado e mantido refrigerado, ele vai manter seus aromas e, então, será
melhor apreciado numa taça de vinho.
4- O Japão estará pela
primeira vez no Espaço Luxury do Festuris. O que o público pode esperar da sua
participação e da experiência que será apresentada em Gramado?
Eu tenho viajado de três
a quatro vezes ao ano para o Japão nos últimos dez anos e sempre apostei que
todo o mundo iria querer visitar o país com frequência. Afinal, quem não quer
conhecer um país com uma cultura e atrações fantásticas, gastronomia e hospitalidade
incríveis e que ao mesmo tempo é super seguro, amigável e, mais recentemente,
acessível? Mas, tendo conhecido alguns dos melhores hotéis do Japão, de férias
com a família, posso dizer também que o turismo de luxo por lá é ainda mais
surpreendente, menos expansivo e espalhafatoso do que em outros mercados, mas
extremamente elegante, detalhista e com um nível cultural e de serviço
inigualável.
Então, o que o turista
brasileiro está descobrindo – e se apaixonando – no Japão hoje é apenas uma
pequena amostra do que o mercado de turismo por lá pode oferecer, com o
destaque da hospitalidade e da gastronomia de alto luxo.
Ou seja, nossa
participação no Espaço Luxury é resultado dessa percepção do público, e tem por
objetivo mostrar que estamos somente começando. E basta ver que quem já foi uma
vez para o Japão geralmente já está planejando a próxima viagem para lá. E quem
já bebeu saquê japonês sempre deixa um espaço na adega ou na geladeira para
algumas garrafas desta bebida maravilhosa.
A ideia é apresentar o
quão rico é o universo do saquê e quanto ele pode ser um dos muitos aspectos de
uma viagem fantástica ao Japão.
5 - O que significa o
título de Sake Samurai?
É o título mais
importante dado pelos produtores de saquê do Japão às pessoas que trabalham
para divulgar a bebida e a cultura japonesa no mundo. É um título reconhecido
pelo governo japonês e, atualmente, são 108 Sake Samurais em todo o mundo,
entre japoneses e estrangeiros.
Mais do que um
reconhecimento pelo trabalho já feito, é um compromisso para continuar e
ampliar a divulgação dessa bebida milenar e da cultura japonesa nos mercados em
que atuam.



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