A proximidade do Halloween, em 31 de
outubro, e do Dia de Finados, em 2 de novembro, chama atenção para uma
modalidade de turismo que tem como principais atrativos a história, a arte e a
arquitetura. Conhecido como turismo cemiterial, o segmento propõe a visitação a
cemitérios históricos, mausoléus e outros espaços funerários para conhecer o
patrimônio cultural, as trajetórias de personalidades e as diferentes formas de
representação da morte ao longo do tempo.
Em cidades como Paris, Buenos Aires
e Praga, cemitérios integram roteiros turísticos e atraem visitantes
interessados em monumentos, esculturas, lendas e personagens históricos. Embora
ainda desperte estranhamento em parte do público, a atividade não está
necessariamente associada ao interesse pelo sobrenatural ou por experiências
mórbidas.
A jornalista Tatiana Rocha, criadora
de conteúdo de turismo e viagens e responsável pelo perfil @a_nomade no
Instagram, costuma incluir cemitérios históricos em seus roteiros. Para ela,
esses espaços oferecem experiências culturais que vão além da visita aos
túmulos.
“Visitar cemitérios históricos é uma
maneira de conhecer a cultura e a história de um destino. São espaços que
reúnem obras de arte, diferentes estilos arquitetônicos e histórias de
personagens que marcaram suas épocas. Não vejo nada de mórbido nesse tipo de
passeio. Pelo contrário, considero uma experiência cultural muito rica”,
afirma.
Em Paris, o Cemitério do
Père-Lachaise é um dos exemplos mais conhecidos de turismo cemiterial.
Inaugurado em 1804, abriga sepulturas de personalidades como Jim Morrison,
vocalista da banda The Doors, o escritor Oscar Wilde e Allan Kardec. Além dos
nomes conhecidos, o local reúne um amplo conjunto de esculturas e monumentos
funerários.
Entre os túmulos que despertam
curiosidade está o do jornalista francês Victor Noir, morto em 1870 por Pierre
Bonaparte, primo de Napoleão III. Sua sepultura apresenta uma escultura em
bronze que se tornou objeto de uma crença popular associada à fertilidade.
Segundo a tradição, tocar determinadas partes da estátua traria sorte no amor e
favoreceria a fertilidade.
Na Argentina, o Cemitério da
Recoleta, em Buenos Aires, se destaca pelos mausoléus monumentais e pela
diversidade arquitetônica. Entre as sepulturas mais visitadas está a de Eva
Perón, figura central da história política e social argentina. O local reúne
construções que se assemelham a pequenas capelas e mansões, algumas com portas
de vidro que permitem observar seu interior.
Outro exemplo é o antigo Cemitério
Judaico de Praga, na República Tcheca. O espaço preserva milhares de lápides,
muitas delas inclinadas e dispostas muito próximas umas das outras. A
configuração está relacionada às restrições históricas de espaço enfrentadas
pela comunidade judaica, que levaram à realização de sepultamentos em
diferentes camadas.
O interesse por espaços de
sepultamento não se limita aos cemitérios. Igrejas, criptas, panteões e
monumentos históricos também abrigam restos mortais de personalidades e
integram circuitos de visitação cultural. Na França, o Complexo dos Inválidos
abriga o túmulo de Napoleão Bonaparte. Na Itália, a Basílica de Santa Croce, em
Florença, reúne sepulturas de personalidades como Michelangelo e Galileu
Galilei. Já o Panteão de Roma abriga o túmulo do pintor Rafael Sanzio.
Além da importância histórica das
pessoas sepultadas, esses monumentos atraem visitantes por suas características
arquitetônicas, obras de arte e representações simbólicas.
Cemitério do Bonfim revela histórias e costumes
da sociedade belo-horizontina
Na capital mineira, o Cemitério do
Bonfim também é cenário de atividades de turismo cemiterial. Inaugurado em
1897, o espaço reúne mausoléus, esculturas, monumentos e sepulturas de
personagens ligados à história de Belo Horizonte.
O projeto Visitas Guiadas ao
Cemitério do Bonfim, idealizado pela historiadora e professora Marcelina das
Graças de Almeida, promove caminhadas temáticas que exploram diferentes
aspectos do patrimônio funerário. A iniciativa busca apresentar o espaço como
um lugar de memória, arte e conhecimento, aproximando a população de histórias
que ajudam a compreender a formação e as transformações da cidade.
Durante a visita ao Bonfim, Tatiana
Rocha conheceu uma história que, segundo ela, exemplifica como os cemitérios
também refletem os valores e os costumes de uma sociedade. Por muito tempo,
determinados monumentos funerários eram erguidos por meio de homenagens
coletivas, com dinheiro público, para preservar a memória de pessoas
consideradas importantes em sua época, porém entre essas homenagens não há
nenhuma mulher.
“Uma das histórias que mais me
chamaram a atenção durante o passeio foi conhecer esses monumentos construídos
a partir de homenagens coletivas. Eles mostram como determinadas pessoas eram
reconhecidas pela sociedade e como essa memória era preservada. "Só lamento que nenhuma mulher tenha
recebido esse reconhecimento diante de tantas figuras femininas importantes
sepultadas ali”, destaca a jornalista.
Para Marcelina Almeida, as visitas
guiadas representam uma oportunidade de ampliar o olhar da população sobre o
Cemitério do Bonfim e sobre as pessoas que estão sepultadas no local.
“O nosso trabalho é mostrar que o
Cemitério do Bonfim não é apenas um espaço de sepultamento. Ele guarda
histórias de pessoas que ajudaram a construir a cidade, além de um patrimônio
artístico e arquitetônico muito importante. Durante as visitas, procuramos
apresentar essas histórias e estimular um olhar diferente sobre o cemitério,
valorizando a memória das pessoas que estão ali e a relação desse espaço com a
história de Belo Horizonte.”
As visitas são realizadas
mensalmente, às 9h, conforme calendário previamente divulgado. A próxima edição
está prevista para 29 de novembro, com o tema “Arte e artistas no espaço
cemiterial”. Mais informações pelo instagram: @visitas_bonfim.



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