Na redação do jornal: de bigode Rogério Perez e de camisa escura Hiram Firmino
Em um movimento inédito de reparação histórica, a Universidade Federal de Minas Gerais pediu desculpas públicas, neste mês de março de 2026, pela compra de cadáveres vindos do Hospital Colônia de Barbacena, entre as décadas de 60 e 80.
O reconhecimento é fruto de uma série de reportagens investigativas publicadas, em 1979, no Jornal Estado de Minas.
Pelas mãos do jornalista Hiram Firmino, com as lentes de Jane Faria e edição do saudoso jornalista Rogério Perez, o Brasil conheceu o horror.
O que deveria ser um sanatório tornou-se um “depósito humano” para quem a sociedade queria esconder: homossexuais, prostitutas, mães solo e pessoas em situação de rua.
Ali, nos "Porões da Loucura", como batizou Firmino em seu livro de 1982, o diagnóstico era a invisibilidade. O tratamento? Eletrochoques, fome, frio e humanos dormindo no chão. O resultado? Mais de sessenta mil mortos.
A barbárie foi relembrada em 2013 com o livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, e mais recentemente, 2025, com o documentário da Netflix. A documentação disponível narra 1.857 corpos de pacientes vendidos para 17 faculdades de medicina do país. Destes, 303 foram destinados à UFMG.
Em ofício corajoso, a reitora Sandra Regina Goulart Almeida declarou que a instituição “pede desculpas à sociedade por esta prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas”. A UFMG foi a primeira instituição pública assumir sua parcela de responsabilidade pelas violações cometidas no maior hospício do Brasil durante o século XX.
O pedido é tardio, mas fundamental. Serve como reverência à memória das vítimas e como lembrete do papel social do jornalismo investigativo "raiz", que transformou denúncias em reforma psiquiátrica. A história não pode ser mudada, mas, ao ser encarada de frente, permite que caminhemos para um futuro mais humano.
Leo Perez ao lado da jornalista Daniela Arbex
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