A ópera “As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart, retorna ao Palácio das Artes após quase 50 anos da primeira e única montagem no local, realizada em 1978. E, para a estreia desta nova produção – que será apresentada no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes nos dias 17, 19, 21 e 23 de maio –, figurino e cenário são elementos indispensáveis.
Com 13 solistas, 58 cantores do Coral Lírico de Minas Gerais (CLMG) – que dão vida à música de Mozart ao lado da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, todos sob regência do maestro residente André Brant – e um enredo repleto de reviravoltas, a ópera em quatro atos conta com uma equipe de profissionais que combinam habilidade artística e rigor técnico para a criação da visualidade que milhares de pessoas verão no palco. O figurino é assinado pela arquiteta italiana Elena Toscano. Marcela Mòr, figurinista assistente, retorna para a segunda produção consecutiva com a Fundação Clóvis Salgado (FCS), após a ópera “Cavalleria Rusticana”, em 2025. William Rausch, também parceiro de longa data do Palácio das Artes, assina o cenário ao lado de Elena.
fotos:Paulo Lacerda
Maestro André Brant
A produção de “As Bodas de Fígaro” exige um total de 108 conjuntos de peças de vestuário, dos quais 50 são inteiramente originais, destinadas aos solistas. Já os integrantes do CLMG usarão um total de 58 conjuntos de figurinos do acervo do CTPF, o Centro Técnico de Produção e Formação Raul Belém Machado – espaço destinado à confecção e salvaguarda do acervo das montagens artísticas da Fundação Clóvis Salgado. Elena Toscano conta que a ideia por trás do figurino é remeter ao vestuário de época, mas com algumas liberdades artísticas. “Tentamos ‘brincar’ com o conceito de roupas de época, mas sem sair muito da caixa. Ainda é um vestuário do século XVIII, mas colocamos ‘pitadas’ da Commedia Dell'arte e até mesmo de referências contemporâneas. Temos que ser práticos e trabalhar com o que é acessível, mas Belo Horizonte tem uma ótima oferta de tecidos, e ainda contamos com todo o acervo do CTPF”, revela.
Melina PeixotoCom trajetória internacional, Elena Toscano é reconhecida
pela criação de figurinos marcados pelo rigor histórico, pesquisa estética e
profunda leitura dramatúrgica da cena musical. A profissional já assinou a
concepção de trajes para importantes títulos do repertório lírico, como “Madame
Butterfly”, “Tosca”, “Salomé”, “O Holandês Errante”, “Carmen” e “A Flauta
Mágica”, apresentados em espaços como o Palácio das Artes, Theatro da Paz
(Belém), Teatro Amazonas (Manaus) e Theatro São Pedro (São Paulo). Em seu currículo
também está a própria “As Bodas de Fígaro”. Ela conta que está dedicada ao
trabalho nesta nova montagem desde setembro de 2025, e que chegou a Belo
Horizonte no final de março deste ano. Elena ressalta que, pela complexidade da
ópera, o figurino torna-se um elemento importante para comunicar imageticamente
uma série de informações ao público. “Tentamos ser muito visuais na escolha das
roupas, da paleta de cores, para já introduzir ao espectador as situações, as
linhas de força, e mesmo a personalidade dos personagens”, explica.
A figurinista, que é formada em Arquitetura pelo Istituto
Universitario di Architettura di Venezia (atual Università Iuav di Venezia),
com especialização em História da Moda e Cenografia, detalha que os cenários,
ao contrário dos figurinos, apostam em uma visualidade menos específica, que
não é nem antiga, nem contemporânea. “Eu e o William Rausch, ao lado do diretor
cênico Mario Corradi, optamos por um cenário ‘limpo’, mais neutro e sutil, com
toques de época. O conceito é inspirado em uma outra montagem do diretor na
Alemanha, mas trata-se de uma criação totalmente nova. Temos basicamente cinco
ambientes: o quarto da Susanna, o quarto da condessa Almaviva, o escritório do
conde Almaviva, o jardim onde acontecem os casamentos no último ato, e uma
composição final, que encerra a ópera. Teremos também um momento muito
especial, quando o personagem Cherubino entra no closet da condessa, onde
estará uma série de figurinos que estão preservados no CTPF, de óperas
emblemáticas da Fundação, e o público poderá ver algumas das autênticas obras
de arte do acervo do Palácio das Artes!”.
Formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard (UEMG) e em
Estilismo e Modelagem do Vestuário pela UFMG, William Rausch já lecionou em
faculdades de Design de Moda e na Escola de Teatro do Cefart – Centro de
Formação Artística e Tecnológica da FCS. Com mais de duas décadas dedicadas à
concepção e construção de cenários, o profissional atuou em vários espetáculos
e produções da Fundação Clóvis Salgado, tais como as óperas “Aida”, “O
Guarani”, “O Barbeiro de Sevilha”, “Turandot”, “La Traviata” e “Macbeth”, além
do balé “Coppélia” e diversas produções operísticas no Brasil e no exterior.
Ele explica que “o conceito do cenário fundamenta-se em módulos estratégicos,
utilizando estruturas de texturas neutras que atuam como uma tela minimalista
para destacar os figurinos de época. Assim, o espaço se torna um mecanismo
vivo, uma arquitetura móvel que se desfaz e se refaz, evidenciando que,
enquanto o cenário é mutável e moderno, os conflitos humanos ali representados
permanecem atemporais”.
Com a missão de fomentar a criação, a formação, a produção e
a difusão da arte e da cultura em Minas Gerais, a Fundação Clóvis Salgado (FCS)
é vinculada à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais
(Secult). Artes visuais, cinema, dança, música, ópera e teatro integram a ampla
programação desenvolvida nos espaços sob sua gestão, como o Palácio das Artes,
a CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais e a Serraria Souza Pinto. A
Fundação também é responsável pela gestão dos corpos artísticos — Orquestra
Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico de Minas Gerais e Cia de Dança Palácio
das Artes — além do Cine Humberto Mauro, das Galerias de Arte e do Cefart. Em
2026, ao celebrar os 55 anos do Palácio das Artes, a FCS amplia suas ações para
todas as artes e todos os públicos, reafirmando seu compromisso com a
democratização cultural.
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