Quando uma cidade realiza dois fóruns sobre diversificação
econômica com apenas seis meses de intervalo entre eles, o recado é claro: o
futuro não é um assunto para depois. É Conceição do Mato Dentro, cidade situada
na única cordilheira do Brasil, dizendo em voz alta que chegou a hora de agir.
O 2º Fórum Regional de Diversificação Econômica, realizado
no dia 2 de junho de 2026, com as inscrições esgotadas antes mesmo do evento
começar, reuniu palestrantes internacionais, especialistas em turismo e
inovação, representantes do poder público municipal e estadual, lideranças
empresariais, empreendedores, pesquisadores e sociedade civil em torno de uma
convicção compartilhada: olhar para o território não apenas como espaço
geográfico, mas como um conjunto de ativos capazes de impulsionar novos ciclos de
desenvolvimento econômico.
A 2ª edição do FRDE | CMD reuniu 200 participantes, 30
municípios de 4 estados, com presença internacional da UNESCO e mais de 100
representações institucionais. Dos total, 123 pessoas eram de Conceição do Mato
Dentro. O evento alcançou 98% de aprovação, com 85,7% dos presentes
reconhecendo fortalecimento da governança e 83,7% apontando geração de conexões
estratégicas.
Otacílio Mattos, prefeito de Conceição do Mato Dentro, se
diz feliz pela realização do Fórum e parabeniza a ACE pela iniciativa. “O fórum
é um espaço fundamental para discutir novas ideias, gerar oportunidades e
construir caminhos que reduzam nossa dependência da mineração. Essa é uma
responsabilidade que deve envolver o poder público, a iniciativa privada e toda
a sociedade. Em Conceição, estamos apostando no turismo, na inovação e no
desenvolvimento rural como pilares para um futuro mais sustentável e diversificado.”
O 2º FRDE | CMD também abriu espaço para valorizar quem
transforma cultura, tradição, criatividade e empreendedorismo em oportunidades
para o território. Foram 12 expositores locais com produtos, experiências e
iniciativas que representam a diversidade econômica e cultural da região,
fortalecendo a conexão entre turismo, economia criativa, produção artesanal e
desenvolvimento territorial.
Um território que tem tudo e está aprendendo a se
enxergar - A Cordilheira do Espinhaço, com 1 bilhão e 700 milhões de
anos, memória que atravessou continentes e hemisférios, foi apresentada não
apenas como paisagem ou ativo ambiental, mas como identidade, estratégia e
produto. A Reserva da Biosfera reconhecida pela UNESCO, existe há mais de duas
décadas, mas ainda é pouco conhecida e pouco ativada como ferramenta de
desenvolvimento. O fórum colocou isso na mesa: como transformar esse patrimônio
extraordinário em desenvolvimento real para quem vive o território?
Bárbara Botega, ex-secretária de Estado de Cultura e Turismo
de Minas Gerais, foi direta na palestra magna: "O município que não
entender que a diversificação econômica passa necessariamente pelo turismo está
muito errado estrategicamente. A Cordilheira do Espinhaço é natureza, é
desenvolvimento sustentável, é identidade, é um ativo, é um produto. A gente
não pode ter vergonha de falar que é produto." Ela defendeu que reconhecer
os produtos do território é o primeiro passo para apresentá-los ao mundo.
A abertura deu o tom do que viria. Amarildo Pereira,
presidente do Instituto Fórum e idealizador do FRDE | MG, foi direto ao ponto:
"O Fórum não é um evento — é um projeto que tem um evento dentro dele. Não
viemos apresentar soluções prontas. Viemos ajudar vocês a trazer visões
externas, entender o que já está dando certo e pensar alternativas para
melhorar."
Carolina Alvarenga, presidente da ACE/CDL de Conceição,
reforçou o sentimento coletivo que tomou conta do evento: "A gente está
com a faca e o queijo na mão. Conceição tem potencial, tem inúmeras vocações,
tem turismo, tem capital natural, tem gastronomia, tem pessoas dispostas a
fazer acontecer. O que precisa agora é construir isso de forma
articulada."
Mariana Santos, presidente da Câmara da Mulher Empreendedora
Eloás, trouxe a perspectiva de quem acompanha a pauta de mineração desde 2018.
"Quando comecei, não existia essa discussão. Hoje, olhar para o que
debatemos ao longo deste dia é perceber uma evolução real. Diversificar não é
pensar no momento em que acabou, não é pensar lá na frente. É pensar agora. O
que que a gente pode fazer no momento para prosperar e construir uma cidade
mais rica de cultura, de turismo, de ideias, de troca de experiências."
Karol Amorim, gerente de Relacionamento e Engajamento Social
da Anglo American, trouxe uma reflexão de recém moradora de Conceição:
"Quando a gente encontra, dentro do trabalho e no lugar onde vive, essas
conexões, isso é uma força, é uma potência muito grande. Ninguém faz nada
sozinho. É construir junto, é pensar no futuro. Eu moro aqui. Não sou daqui,
mas moro aqui. E quero muito ver esse lugar cada vez melhor. Se eu puder
contribuir, e posso, tenho a obrigação de fazer isso."
O turismo como sobrevivência fiscal — e muito mais - A pauta da reforma tributária e seus efeitos diretos nos
municípios, trouxe uma relfexão da real importância do turismo. O setor gera
emprego de forma democrática, barata e transversal. Inclui jovens, egressos de
programas sociais e pessoas com baixa escolaridade.
Qualifica cidades. Financia
a conservação da natureza e do patrimônio cultural. E, talvez mais importante,
constrói a marca do território — aquela percepção de valor que faz alguém pagar
mais pelo queijo, pelo mel, pelo vinho, pelo pão de queijo, só porque sabe de
onde vem.
Gustavo Meijon, secretário municipal de Turismo, com 27 anos
dedicados à região, a maior parte deles como empreendedor do setor receptivo,
foi enfático: "Quem faz as coisas acontecerem são as pessoas. E as pessoas
precisam investir, acreditar, ganhar, perder. O turismo não é feito pelo poder
público — é feito pelo empreendedor, pela comunidade organizada, pelos
distritos que assumem o protagonismo." Ele apresentou o programa Turismo
em Ação, que está estruturando os principais distritos turísticos do município
com planejamento integrado, produto comercial próprio e acesso a crédito
subsidiado — para que o morador local seja o primeiro a se beneficiar do
desenvolvimento, não o último.
Inovação, universidade e o ecossistema que está nascendo - À tarde, a pauta girou em torno de uma pergunta que parece
simples e não é: o que Conceição não está vendo ainda? A resposta veio em
várias camadas. Economia criativa — não só artesanato, mas os treze segmentos
que vão de patrimônio cultural a software, de gastronomia a design. Distritos
criativos que transformam bairros e comunidades em polos de produção e
identidade. Turismo de base comunitária, onde a comunidade é protagonista e não
coadjuvante. Turismo científico, aproveitando a presença da Reserva da Biosfera
e o novo campus da UFVJM.
A mensagem que chegou a todos foi: inovação não é uma coisa
extraordinária e complexa. É uma ideia que resolve um problema. É melhoria
contínua. É escuta ativa. É construção coletiva.
O fórum funcionou — e todo mundo percebeu -Ao final do dia, havia um sentimento que não precisava ser
declarado em voz alta para ser percebido: o projeto “colou”. Poder público,
setor privado, empreendedores, pesquisadores, representantes de municípios
vizinhos — todos saíram com a percepção de que algo concreto estava sendo
construído: o nível do debate, o engajamento, os encaminhamentos práticos e as
concexões e parcerias que começaram a se desenhar ao longo do dia.
Não foi um dia sem tensões. Foram apontadas contradições,
limitações, problemas mal resolvidos. Mas esse é exatamente o papel do Fórum —
que desde a sua concepção não veio trazer soluções prontas, mas provocar uma
reflexão coletiva sobre os caminhos que os municípios pretendem seguir nas
próximas décadas.
O que vem depois? A síntese estratégica do evento já apontou os próximos
passos: um relatório consolidando os aprendizados do dia, um modelo de
governança com participação de poder público, iniciativa privada, academia e
sociedade civil, mapeamento da oferta turística e do perfil empreendedor local,
inventário de práticas inovadoras e, como horizonte, a criação de um
laboratório de economia criativa voltado ao desenvolvimento territorial.
E já há um spoiler no ar: a terceira edição está em
planejamento.
Seis meses entre um fórum e outro não é intervalo curto — é
ritmo. É o sinal de que Conceição do Mato Dentro entendeu que falar sobre o
futuro não é tarefa de uma vez por ano. É uma prática, uma postura, uma decisão
coletiva de não deixar para amanhã o que pode, e precisa, começar hoje.
O 2º Fórum Regional de Diversificação Econômica | Edição
Municipal Conceição do Mato Dentro foi realizado pela ACE/CDL de Conceição do
Mato Dentro e pela Câmara da Mulher Empreendedora Eloás, com correalização do
Instituto Fórum, patrocínio da Anglo American e da Prefeitura Municipal de
Conceição do Mato Dentro.
As empresas Geoflora Connect, MM Advocacia Minerária,
Pousada Alto do Baú, Petronas | Postos Tijucal, Viação Serro e Bureau
Consultivo patrocinam esta edição como Vozes do Território. O evento conta
ainda com apoio institucional da Federaminas, Invest Minas e Governo de Minas
Gerais.