Na varanda de Norma de Oliveira e Laudelino Ferreira, uma obra de arte passou a dividir espaço com a rotina da casa. Desde então, o alpendre tornou-se ponto de visitação em São Gonçalo do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais. Moradores e visitantes chegam orientados por um mapa, conhecem o trabalho instalado no local e seguem para os demais pontos do percurso. A residência integra a exposição Rio Que Grita, da artista, educadora e historiadora Joyce Ribeiro. Em cartaz até 14 de agosto, a mostra reúne fotografias, vídeos, cerâmicas, escritos, ações urbanas e contações de histórias em diferentes locais do município. A visitação é gratuita.
Moradores também participaram da construção dos trabalhos: compartilharam histórias, emprestaram objetos, colaboraram em gravações, ofereceram espaços e ajudaram a viabilizar ações da exposição.
Norma vive em São Gonçalo do Sapucaí há quase 39 anos. Natural de Sabará, ela trabalha ao lado do marido, o empresário Laudelino Ferreira, em uma empresa que presta serviços de informática, instala sistemas comerciais e produz carimbos personalizados.
O casal conhece Joyce desde a infância, quando a artista
estudava com Clara, filha dos dois. Agora, além de receber uma obra, Norma e
Laudelino acompanham a chegada do público à varanda da família. “Achei lindo
ter uma obra dela no nosso alpendre. Tem sido um prazer enorme receber os
visitantes aqui. Vou sentir saudades. Nunca minha varanda foi tão visitada.
Amei”, conta Norma.
A convivência com a exposição também permitiu que o casal
conhecesse narrativas sobre o município. “Acolher essa causa nos trouxe um
enriquecimento enorme, pois, com esse projeto da Joyce, passamos a conhecer
histórias que não conhecíamos. Falo por mim, por Laudelino, que sabe muito das
histórias desta terra e que, obviamente, tem muitas coisas que também não sabe.
A Joyce trouxe à tona as histórias do passado e do presente, que nem tão
distante parece ser”, afirma.
Um museu espalhado pela cidade - A advogada Giuliene Azevedo Luciano, natural de São Gonçalo do Sapucaí e apaixonada por história, percorreu os diferentes pontos da exposição acompanhada da filha. A experiência, segundo ela, estabeleceu outra relação com as ruas e os espaços cotidianos do município. “Foi uma experiência muito reflexiva e diferente de tudo o que eu já havia vivenciado. É como se o museu estivesse a céu aberto, integrado às ruas da cidade. Cada parada despertava uma emoção diferente e me fez perceber que o simples, o cotidiano e o sertanejo também são belos e carregam significado”, relata.
Ao longo do circuito, Giuliene reconheceu nas obras
personagens e experiências que nem sempre ocupam espaço central nos registros
históricos. “Durante todo o percurso, eu pensava: ‘Que bom reconhecer que os
verdadeiros heróis que construíram nossa cidade são pessoas comuns,
trabalhadoras e simples, e não apenas a elite, como muitas vezes aprendemos na
história’”, afirma.
Para o curador da exposição, o arquiteto, artista visual e diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto, Nilton Campos, a presença das obras em diferentes pontos mobiliza os espaços e as pessoas. “O que mais me chamou a atenção na exposição é que a Joyce, ao fazer essa proposição artística, ativa a própria cidade, fazendo com que os moradores repensem suas origens e suas referências no espaço urbano”, afirma.
O mapa também nasce na cidade
A participação de Norma e Laudelino no projeto começou antes
da abertura da exposição. O casal foi responsável pela produção dos carimbos
personalizados utilizados no mapa que orienta o público pelo circuito.
O convite surgiu após um encontro entre Joyce e Clara, amiga
de infância da artista. Na ocasião, Joyce contou à família que pretendia criar
carimbos correspondentes aos locais que receberiam as obras. “Fiquei lisonjeada
com a proposta, e minha filha também. Afinal, eu e o Laudelino herdamos, de
alguma forma, esse trabalho de confecção de carimbos, que começou com a Clara
no comando, até que ela nos entregou a tarefa”, relata Norma.
Com os carimbos, a produção realizada pela família passou a compor a cartografia utilizada pelos visitantes para localizar os trabalhos espalhados pelo município.
Voltar para olhar de outro modo - Rio Que Grita integra o Projeto Bageira, pesquisa desenvolvida por Joyce Ribeiro ao longo de seis anos sobre os modos de relação, ação e convívio no interior.
Nascida em São Gonçalo do Sapucaí, Joyce abriu o primeiro
ateliê aos 14 anos e começou a lecionar aos 17. Aos 28, mudou-se para São Paulo
para estudar artes visuais. O contato com instituições, escolas e circuitos de
arte contemporânea alterou também sua percepção sobre a cidade natal.
Ao retornar, a artista passou a aproximar os conhecimentos adquiridos nos grandes centros das narrativas, dos hábitos e das referências do interior. O deslocamento produziu um sentimento de estranhamento diante de um lugar ao qual continuava pertencendo. Essa condição de tornar-se, em alguma medida, estrangeira na própria cidade passou a integrar sua produção artística. “Não me interessa separar o que é lembrança, invenção ou história, mas compreender como essas dimensões produzem juntas uma forma de conhecimento”, afirma Joyce.
O que existe no fundo de um lugar - Entre os trabalhos apresentados está Profundo, ação realizada no Lago Piscina, antigo espaço de mineração transformado em parque. Para executar a obra, Joyce aprendeu a remar e instalou uma boia de mergulho na água.
Moradores disponibilizaram um barco, ajudaram na gravação e permaneceram no local até a conclusão da ação. Norma acompanhou a realização do trabalho e o registro fotográfico produzido no lago. “O registro da foto de Joyce no lago nos fez perceber a força que ela carrega dentro de si, e a realização desse evento, além de nos mostrar a história que esse lugar guarda em suas profundidades, mostrou também o ato de coragem da artista. Aprender a remar, aventurar-se sozinha e demarcar o local Profundo tornou realidade o seu sonho”, conta.
A obra também permaneceu nas reflexões de Giuliene após a visita. “A obra Profundo me deixou pensativa por quase uma semana. Cheguei em casa contando a história da ‘piscina’ e refletindo sobre quantas narrativas, encontros e memórias aquele espaço já abrigou”, relata.
Outro trabalho destacado por ela foi Memórias Involuntárias, composto por uma frase instalada no espaço urbano e recebida de maneiras distintas pelo público. “Além de a frase ser extremamente provocativa, foi interessante observar as diferentes interpretações das pessoas da comunidade. Cada um enxergava algo diferente, e isso mostrou como a arte desperta lembranças, sentimentos e histórias particulares em cada pessoa. Foi muito engraçado ver a comunidade eufórica com a frase em destaque”, afirma.
Para Giuliene, esse processo chama atenção para personagens, espaços e experiências que podem passar despercebidos no cotidiano. “Percebi que a exposição valoriza justamente aquilo que muitas vezes passa despercebido: as memórias afetivas, os causos, os personagens anônimos e os espaços que fazem parte da vida da comunidade. Ela nos lembra que a história não é feita apenas de grandes acontecimentos, mas também das experiências das pessoas comuns”, afirma.
A exposição também retoma a memória da Bageira, árvore que
existia na região central de São Gonçalo do Sapucaí e foi abatida em 1956.
Mesmo ausente da paisagem, ela permaneceu nas histórias e referências dos
moradores.
No projeto, Joyce cria outro destino para a árvore: depois de morrer, a Bageira teria se transformado em uma canoa para seguir pelo rio Sapucaí. “Bageira representa justamente a permanência intangível da história e da memória. Ela guarda o imaginário regional de uma comunidade sobre o seu território”, explica a artista.
Na mostra, a imagem do rio está associada a deslocamento, movimento, fronteira e retorno. A referência também aparece nos relatos reunidos pelo projeto e nas histórias compartilhadas pelos moradores durante a preparação e a visitação do circuito.
Depois de percorrer os pontos da exposição, Giuliene afirma ter voltado seu olhar para elementos que fazem parte da formação e da vida cotidiana de São Gonçalo do Sapucaí. “Saí da exposição com um sentimento ainda maior de pertencimento e gratidão pela cidade onde nasci. Ela me fez refletir que a riqueza de São Gonçalo do Sapucaí está nas pessoas, em suas histórias, nos pequenos gestos e nos lugares que, à primeira vista, parecem comuns, mas carregam uma enorme carga de memória e significado”, declara.
A experiência também reforçou, para a moradora, a relação entre preservação histórica e reconhecimento das pessoas que vivem no município. “A exposição me fez olhar para a cidade com mais sensibilidade e compreender que preservar a história também é reconhecer o valor das pessoas simples que, todos os dias, constroem e mantêm viva a identidade do nosso município. Eu fiquei muito feliz por levar minha filha comigo na exposição da Joyce”, conclui.
O projeto é realizado com recursos do Edital de Chamamento Público nº 01/2026, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Governo Federal, Ministério da Cultura, Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais e Subsecretaria de Cultura; e do Edital de Chamamento Público nº 002/2026, da Secretaria de Cultura de São Gonçalo do Sapucaí. Conta ainda com patrocínio da EBM Contábil.
Joyce Ribeiro é artista, educadora e historiadora. Natural
de São Gonçalo do Sapucaí, vive e trabalha entre São Paulo e Minas Gerais desde
2014. Sua pesquisa aborda o imaginário cultural caipira, os causos de tradição
oral e suas relações com a historiografia. Desenvolve trabalhos em fotografia,
vídeo, objeto, cerâmica, escrita, ação e contação de histórias.
Entre seus trabalhos recentes estão Conversas de Bageira,
apresentado na Move Arte, em São Paulo; a residência artística Ouro Preto
Inevitável, no Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto; a exposição
Afeiçoar-se, no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro; e a participação
na POSVERSO — Bienal Internacional de Poesía Experimental da Argentina.
Exposição: Rio Que Grita
Projeto: Bageira
Local: diferentes pontos de São Gonçalo do Sapucaí, Minas Gerais
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